sábado, 5 de fevereiro de 2011

veja bem, meu bem

Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Este olhar é o da alma.

BONNER, Nilton. Rio de Janeiro: Rocco: 1998
olhares de elisérgica e de outras alérgicas.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

insônia 2:25

FRITONACAMA

cuzida pelo calor

flambada no lençol

bem passada no amor

ao ponto de corte,

da degustação interna.

(tasinha)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

amor feinho

Mangaratiba - RJ, 2008
 
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
 eu sou homem você é mulher.
 Amor feinho não tem ilusão,
 o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
(Adélia Prado)

um tanto de gente

Conceição do Mato Dentro - MG, 2010 foto: Gigi

Tenho medo de quem usa muita roupa
De gente que cobre o pés, as pernas, o peito e o pescoço
De gente que sai prevenida, com remédio pra dor de cabeça, guarda-chuva e para raio
Com a bolsa do tamanho de seus problemas
Gente que não sabe tomar chuva de verão
Nem esperar a primeira estrela aparecer
Gente muda de bom-dias ensolarados e de convites divertidos
Que desconhece o próprio corpo e lhe proíbe as comidas favoritas
Que não sabe usar perfumes depois do banho, nem levantar os pés quando chega do trabalho

Tenho medo de gente que tenta ser normal (porque normal não existe)
Que tenta fazer tudo certinho
Pra impressionar a mãe, o vizinho, o padre e o casamento feliz
E um dia descobre que ficou velho

Tenho medo de gente que tem medo de amar
De gente que não dança, que não se abraça quando tá contente
Gente sem contato humano, sem conhecimento humano
No dia em que aprendermos que o outro é tão igual
Seremos menos egoístas com nossos sentimentos iguais.

Tenho medo de quem só se casa uma vez
Bom seria casar uma vez por ano, uma vez por mês
Ainda que com a mesma pessoa, todos os dias.
Uma lua-de-mel não programada
Uma viagem do tapete ao sofá à cama e, de novo, ao tapete.

Tenho medo de gente que tem copos para visita
Que não bebe na taça mais linda todos os dias
Que deixa a toalha de renda mofar na gaveta esperando o natal
Que espera a tragedia pra homenagear
E o tempo passar pra arrepender.

Tenho medo de quem ri muito e de quem ri pouco
Medo de olho gordo e pessoas pesadas
Medo de conversa de elevador
E de conversa pra boi dormir

Posso ser uma por dia
Duas por dia
Ou tudo que sou em uma noite só
Se no dia seguinte eu puder dormir até o sol se por
Posso me equilibrar em muros e meio frios
Trepar em árvores e mergulhar de cabeça
Posso pensar até dormir ou não dormir de tanto pensar
Amar loucamente, casar e separar num único olhar
Dormir de meias, dançar na frente do espelho músicas imaginárias
Posso ouvir, ouvir, ouvir, o que se fala, o que se canta e o que se cala
Ser cúmplice numa torta de morango ou numa viagem sem destino
Posso andar em bando ou em banda
Sozinha ou comigo mesma

E quando eu tiver medo, eu posso correr.

(desconheço a fonte, mas a água é limpa.)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

ô pai, toca preu rodar

foto: Kika Antunes      www.kikaantunes.com.br








                                                                         
música: Raquel Coutinho, Hanna e Lênis Rino, Bruno Couto e Jongui

tomadas e gavetas

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Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for 

(cláássica. Vilarejo. Carlinhos Brown.)